VIAGEM À VOLTA DO MEU RETRATO
Distraidamente, retirei um album da estante, que ali estava há longos anos, ao lado de livros de viagens, e deparei com uma fotografia minha.
Com menos vinte e cinco anos e com farto cabelo, era uma razoável aproximação do que ainda hoje sou, embora me dê uma certa vontade de rir aquela seriedade de executivo, óculos carregando a figura, dando-se ares de sério executivo: Senhor doutor p’raqui, senhor engenheiro p’rali, sempre numa roda-viva, com secretária, agenda e hora marcada, fumando três a quatro maços de tabaco por dia e fazendo check-ups completos de seis em seis meses.
Um dia, depois de almoço, sentei-me para despachar alguns dossiers que tinha sobre a mesa, e por um longo minuto que me pareceu a Eternidade, fiquei sem respirar. Acabou nesse dia uma longa carreira de fumador.
Regressara há pouco de uma longa viagem por Itália, onde fora a pretexto de um Congresso Internacional de Modelos e Sistemas aplicados à Economia. Eu tinha alguma experi-ência nesse campo, e Milão era, nesse ano, o lugar do areópago onde se pretendia já mundi-alizar um plano de contabilidade que hoje vigora em toda a Comunidade Europeia.
Tudo se passava então em ambiente político, onde as técnicas e o saber contavam menos do que a influência das ideologias que se sobrepunham ao prestígio dos homens e das nações.
Foi uma das minhas raras participações em Congressos que francamente me desgostou. Recordo-me então de ter apoiado um mestre brasileiro da Universidade Café Filho, que dissertou sobre a contabilidade os balanços, à luz de uma nova e interessantíssima teoria de contas positivas e negativas. Os «sábios» da Europa ficaram em estado de choque perante o arrojo desse professor brasileiro e eu fui o único congressista que o apoiou e, provável-mente, o único também que leu e compreendeu o alcance inovador desse trabalho. Ficámos amigos e ainda nos viemos a encontrar em Lisboa, pelo menos mais uma vez.
Depois desse congresso senti necessidade de refrescar o espírito e dirigi-me para o Sul, tomando um pequeno avião das carreiras internas de Itália. Fui até Florença, onde fiquei cerca de dez dias, num pequeno hotel antigo junto à Signoria, num ambiente onde parecia ainda pairar a sombra de Lourenço, o Grão-Duque da Toscana. Percorri, demoradamente, os caminhos do meu imaginário cultural, parei, comovido, sob a varanda da casa de Dante, deslumbrei-me com a beleza da Fornarina e a graça alada da Vénus nascente de uma concha nacarada, rodeada de anjos e de sátiros.
Percorri a imensidade das Galerias do Palácio Pitti, examinei os mapas sobre os quais se debruçou Colombo a bordo do Santa Maria e, num profundo recolhimento, olhei longamente para a Virgem dos Rochedos, de Leonardo, tentando imaginar onde o artista teria pintado aquela paisagem lunar.
Depois, atravessei a Ponte Vechio sobre o Arno, olhando deslumbrado a riqueza das jóias e dos corais ali expostos nas arcas dos merca-dores, provavelmente descendentes daqueles outros que exibiram em suas mãos os adornos que vendiam às damas e meninas de Florença, talvez a Laura e Beatriz ou à própria Lucrécia Bórgia.
Subi aos jardins de S. Michelo, e voltei a descer para contemplar os frescos de Gioto em Santa Maria. Admirei os mármores da Campanella e as portas do Baptistério, mesmo ali em frente, esculpidas e fundidas no bronze por Miguel Ângelo.
Chorei perante o David nu, na alvura do mármore de Carrara, e afoguei a minha nostal-gia lusitana no Chiantti rosso da Toscânia.
Rezei pelas almas de Giordano Bruno, Savonorola e Galileu, vítimas do obscurantismo e da ignorância que inflamou aquela época de tantas riquezas materiais.
Disse, com pena, arriverdecci Florença, e desci pela Via del Sol até Roma, onde deixei ficar umas moedas de cem liras na Fontana di Trevi, o que de nada me valeu, pois nunca mais lá voltei.
Fiquei esmagado pelas colunas do Vati-cano, o peso do bronze do baldaquino, e tive a felicidade de ver a Pietá, ainda com seu harmo-nioso nariz, tal como saíra do cinzel de Miguel Ângelo. A Capela Sistina estava em obras e não pude ver o dedo de Deus criando Adão, nem o Papa que veraneava, por essa altura, em Castelgandolfo.
No deslumbramento da luz de Roma, cheguei a esquecer-me de quem era, que tinha uma pátria e uma família e, nesse devaneio de latino, fui-me deixando ficar até à última nota de mil liras, então suficiente para tomar um taxi e ir do centro de Roma ao Aeroporto de Leonardo da Vinci.
A cosmopolita Via Veneto, a Trinita dei Monti com aquela barcarola no fim da escadaria íngreme, as ruínas do Fórum e do Coliseu, o Arco de Adriano, o minestrone nas tasquinhas acompanhado do doce e quente Chiantti da Toscânia.
Regalei os sentidos na beleza rechonchu-da das romanas e na airosa esbeltez das lombardas, sem que me saísse dos olhos as imagens da fina doçura das florentinas; vi os filmes de Pasolini, proibidos em Portugal, enquanto Salazar não caia da Cadeira; a visão do mundo de Pasolini, contudo, desgostou-me.
Tudo isto se passou há trinta e cinco anos quando o Arno transbordou, e as águas atingi-ram a altura que deixou a marca de 1,20m, nas paredes do Duomo de Florença, cujo chão estava coberto de esteiras e onde as equipas de recuperação trabalhavam afanosamente para recuperar os frescos que cobrem profusamente as paredes do magnífico templo dedicado a Santa Maria.
Quando regressei à Velha Casa Lusitana, senti que algo em mim havia mudado. Na realidade, estamos sempre a mudar, mas é preciso entrar em contacto com realidades novas para nos darmos conta dessas mudan-ças. Itália foi, para mim, essa realidade e mola de mudança, tal como já havia acontecido antes com uma legião de outros viajantes - Goethe, por exemplo.
Hoje, numa tarde ainda mais quente do que essas tardes dos verões de Roma, repeti essa viagem à roda da minha fotografia.
Fernando da Costa Quintais
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